Academia, açougue ou bom professor?

Eu juro que fiquei em dúvida se a minha conclusão que vou apresentar neste texto é baseada numa eficiente leitura dos fatos ou é fruto dos efeitos da minha idade avançada e conservadorismo. Mesmo assim decidi seguir em frente. Azar de quem vai ler rsrsrsrsrs.
Uma academia deveria ser um espaço que oferece as melhores condições para ajudar as pessoas a se relacionarem com a atividade física de forma duradoura, agradável e eficiente, na busca de seus objetivos bio-psico-socias.
Ao longo dos anos, tentando chegar nesse ideal, evoluímos muito no desenvolvimento de equipamentos, métodos de treinamentos mais adaptados ao consumidor moderno. Ambientação e acolhimento, arquitetura moderna e design elaborados se transformaram em alguns dos requisitos fundamentais de uma academia. Profissionalizamos a gestão, as vendas, o marketing, as formas de pagamento, a fisiologia, a biomecânica, a ficha de treino, a lanchonete da academia, a loja de roupas da academia, o tratamento da água da piscina, os tecidos dos quimonos, o Wi-Fi, a ventilação que ficou “ecológica”, a maneira como entregamos as aulas (aulas virtuais e aplicativos) e até o emagrecimento. Tudo está mais eficiente, mais rápido, mais comercial, mais rentável, mais disruptivo e mais INEFICIENTE.
Temos tudo para os clientes, menos resultados. Isso mesmo.
Lembra do começo do texto? Duradoura, agradável e eficiente.
A cada estudo novo que demonstra algum avanço no conhecimento a respeito do metabolismo corporal durante o exercício, um programa de treinamento novo é lançado. E o que deveria chegar para complementar a EVOLUÇÃO do relacionamento das pessoas com a atividade física, vira uma nova REVOLUÇÃO.
da hora é o HIIT.
Há quem diga que sempre foi assim, eu sei, é verdade. A diferença agora é que está mais rápido e os clientes mais desesperados. O nível de ansiedade das pessoas em tentar combater os terríveis males causados pelo acesso fácil à comida e aos confortos, alimenta um mercado covarde e irresponsável de ofertas de “pílulas” milagrosas, de fórmulas mágicas. Ah! Aos meus amigos vermelhos, não tem nada aí contra o comércio, a venda, o capital, ok?
Matricular-se numa academia para aplacar a culpa ou tentar desesperadamente em uma hora, reverter os abusos das outras 23 horas, virou moda. Bem, não sei se virou uma moda consciente já que muitas pessoas acreditem mesmo que se matricular já é o suficiente.
Há inclusive academias que se aproveitam desse furor descontrolado para lucrar com a culpa da população. Aí que entra a arquitetura, ambientação, design, iluminação, equipamentos, novos programas, marketing e etc, como ferramentas poderosas para a fazer com que as pessoas se sintam bem nestes ambientes. Ótima contribuição.
Mas se sintam bem para que? Eu pergunto. Isso. Para que se sentir bem no ambiente de uma academia?
Então, lembram-se que uma academia deveria oferecer as melhores condições para as pessoas persistirem na busca de seus resultados bio-psico-sociais?
Os resultados biológicos da atividade física só aparecem com empenho, com regularidade, com uma boa interdependência entre volume e intensidade de treinamento, com quebra da homeostase, com o aprimoramento do sistema tampão, com aumento da resistência psicológica ao esforço e vocês sabem o que mais.
Mas as pessoas também querem benefícios sociais e psicológicos. Mesmo esses se consolidam com a presença, com a frequência regular e além do mais estamos falando de uma academia. Se o social é mais importante do que tudo e não quer fazer esforço, te recomendo um bar ou uma balada. Aliás algumas academias já se assemelham a esse tipo de estabelecimento.
Tudo certo, academia tem de ser acolhedora, bonita agradável, mas precisa cumprir seu papel principal e entregar resultados. E mais, precisa fazê-lo de forma saudável. Digo isso porque na busca de entregar resultados muitas academias submetem os clientes à tipos de esforço inadequados ao seu histórico motor e metabólico. Creio que um exemplo recente é o CrossFit, uma excelente atividade, para quem sobrevive às suas aulas. O CrossFit é um esporte (e esporte não é saúde) que pretende ser uma opção saudável para a população. Só que junto com os donos dos boxes, quem está ganhando dinheiro mesmo são os médicos e fisioterapeutas.
Eu tenho amigos que têm box de CrossFit e tentam fazer um bom trabalho mas apenas enxugam gelo, na minha leitura.
Eu mesmo desenvolvi, baseado nos estudos recentes, um programa de emagrecimento de 12 semanas. Me parece uma alternativa apropriada para aqueles que sofrem com o excesso de peso e não conseguem sozinhos se livrar desse sentimento. Com acompanhamento de nutricionista, apoio motivacional e um professor orientando as atividades no relacionamento um a um, o programa tem a intenção, e a cumpre bem, de fazer com que a pessoa com excesso de peso aprenda a se relacionar com as mudanças alimentares necessárias e a ter uma convivência regular com o movimento corporal e emagreça. Outro dia vi um expert em vendas defendendo que esses programas deveriam ter 8 semanas de duração já que os clientes pedem e querem os resultados num tempo menor.
Sério que os clientes querem em menos prazo? Faz de um dia então, faz de uma semana, faz em 21 dias como está na moda e aceite que seu cliente se “auto medique” e você seja o agente reforçador do histórico dele de obter grandes mudanças num tempo curto mas que têm um efeito rebote terrível.
– Ah! mas ai eu vendo de novo programa e ganho outro dinheiro dele. Diz o comedor de capim.
É disso que estou falando.
Academia virou um “açougue”.
Na busca de atender pessoas desesperadas e descompensadas, as academias desistiram de tentar ensinar, desistiram de tentar explicar como as coisas realmente são, desistiram de influenciar, de inspirar, de seduzir para as mudanças necessárias, de fazer avaliação física e desistiram principalmente de dizer… CALMA.
Muitas, mas muitas mesmo, no desespero apostam que a Zumba é ótima para emagrecer. Por ignorância ou má fé.
E a Zumba é sensacional, ela é uma das coisas mais fantásticas para atrair e fidelizar clientes numa academia. É divertida, dinâmica, aglutinadora de pessoas, faz bem para o social e psicológico, mas por si só não emagrece. Talvez engorde.
Poderia ser usada inclusive para aproveitar a audiência fiel que tem e usá-la como isca para explicar as coisas como elas são para os alunos.
E não é só ela não, há muitas pessoas correndo como loucos nas esteiras, fazendo aulas num trampolim, num step ou numa bike na expectativa de emagrecer. À todos os apaixonados por estas modalidades, antes de me mandarem a pqp, vejam que me refiro especificamente a emagrecimento e não às outras maravilhas que estas ótimas aulas podem oferecer.
E por que eu falo tanto de emagrecimento? 82% vai para uma academia em busca disso.
As academias viraram um açougue.
Ao invés das aulas serem usadas com pessoas, estamos usando-as com corpos.
Eu acho que a “salvação” está no professor, no Bom Professor.
Isso, aquele que começamos a perder para a carreira de personal trainer por volta do ano de 1995. Foi por volta deste ano que os Bons Professores cansados de ganhar pouco dinheiro decidiram se jogar na carreira de personal trainer. Justo.
E por que não ganhavam um bom dinheiro já naquela época? Por que já naquela época éramos ineficientes no trato com os alunos. Já desde aquela época não éramos eficientes no manejo das variáveis comportamentais dos clientes.
Os números financeiros das academias, por conta disso, eram e são horríveis. não há dinheiro suficiente.
Tivemos uma oportunidade de começar os estudos nessas áreas naquele período mas não o fizemos. A também ânsia de achar uma resposta financeira fez com que os melhores, inconscientemente, buscassem o caminho mais “fácil”.
Enfim, perdemos a colaboração de todos os bons professores.
A minha leitura é que o mercado vai se dividir entre dois tipos de academias. As que apostam em baixar preços e ganhar com volumes de vendas enormes e danem-se os resultados e as outras que oferecerão um serviço qualificado, com resultados, à pequenos grupos por um preço alto.
A massa vai perder, a população vai perder, a atividade física vai perder.
Em minhas palestras tenho apresentado essas idéias e obviamente as reações são diversas, desde um ódio absoluto até desprezo. Mas o que tem chamado mais e mais minha atenção é a quantidade cada vez maior de donos de academias que concordam, que sofrem com isso, que desejariam que fosse diferente.
Não sabem como, não vêem a saída, alguns até se sentem aliviados por encontrar alguém que pensa e tem o mesmo sentimento que eles têm deixado escondido em algum cantinho remoto do espaço destinado ao desejo de entregar efetivamente os resultados para seus alunos.
Alguns dizem, que por não encontrarem saída, se agarraram à Zumba para vender emagrecimento, ao CrossFitness (nome que deselegantemente adotam para copiar o original) para atrair clientela, adotam a venda à qualquer custo para compensar as perdas. Que não queriam fazer isso, que gostariam de lutar pela entrega mas não acham um caminho.
Quando os provoco com o desafio de adotarem #minhacademiaentregaresultados todos aderem e por um instante se sentem confortados, esperançosos e felizes.
É certo que ao voltarem para a realidade de suas academias tudo se perderá e ela se transformará num “açougue”.
Bons Professores chegou a sua, a nossa hora.
– Opa! aumentou a hora aula?
eheheh Você não é realmente um bom professor.
O mundo das academias está precisando dos Professores. Está precisando daqueles que não aceitam um aluno frequentar pouco, daqueles que acham que os alunos devem saber o que é um carbo de cadeia longa, daqueles que acreditam que falar de supercompensação vai ajudar os alunos a entenderem o porquê das coisas, daqueles que observam mais, que perguntam mais, que convidam para um papo informativo, que não aceitam que a educação física faça parte desse circo de horrores que nós mesmos deixamos as academias se transformarem. Nós que demos espaço para surgir essas aberrações todas, essas tantas aulas de massacração, de gasto calórico total a qualquer custo, esses programas com números mágicos 48, 21, 7 e tantas outras besteiras. E nós é que deveremos reverter isso.
Vamos?!
Se não fizermos isso, corremos o risco de trocar nosso short e cronômetro por um avental e uma faca bem afiada.

Almeris Armiliato

PS: Eu decidi escrever depois de ver o fantástico post do Marcos Tadeu falando de sua experiência numa visita à uma nova academia do mercado. Disruptiva.

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