O paradoxo das academias: clientes aumentam, e faturamento cai

Sindicato de academias alerta para o risco de acidentes provocados pela falta de profissionais para monitorar os alunos

O mercado fitness no Brasil vive hoje um aparente paradoxo. O número de academias aumentou, assim como o de clientes. Isso, porém, não significa que os negócios vão de vento em popa, já que o faturamento está em queda.

De acordo com dados de 2016 divulgados pela ACAD (Associação Brasileira de Academias), são 34 mil unidades em todo o país (três mil a mais em relação a 2015). Só fica atrás dos Estados Unidos (36 mil). O número de clientes saltou de 7,9 milhões no ano retrasado para 9,6 milhões em 2016.

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Por outro lado, ao contrário das expectativas, o faturamento caiu: de 2,4 bilhões de dólares (7,6 bilhões de reais) em 2015 foi para 2,1 bilhões de dólares (6,6 bilhões de reais) no ano passado.

Medalhista olímpico em Barcelona-1992, Atlanta-1996 e Sydney-2000, o ex-nadador Gustavo Borges, hoje presidente da ACAD, admite que os últimos anos não foram bons para o setor e cita os problemas econômicos do país como um dos fatores principais para a queda.

“O mercado, como um todo, vem sofrendo muito desde 2014. No ramo das academias vemos uma dificuldade grande em termos de negócio, tanto em nível individual como de grupo”, diz Borges.

Apesar de estar na segunda colocação na lista de número de academias, o Brasil foi apenas o décimo que mais faturou em 2016. Ganhou 25,5 bilhões de dólares a menos do que os Estados Unidos, primeiro do ranking.

ACADEMIAS DE BAIXO CUSTO

O crescimento do modelo “low cost” (preço baixo, em tradução livre), que tomou espaço de grandes academias graças aos valores baixos praticados, ajuda a explicar os números do setor. Borges diz que o consumidor está mais específico e que as academias precisam se adaptar a essa nova demanda. Oferecer de tudo um pouco, sem uma especialização, não é mais interessante para o negócio.

“Temos visto o crescimento de academias focadas em spinning, yoga, pilates… O cliente quer um atendimento diferenciado. Talvez ele só queira natação. Por isso é preciso se especializar em uma coisa. As academias multiuso precisam se preparar para isso”, diz ele.

A Runner, que chegou a ser a maior rede do país, foi uma das abatidas pela expansão das academias de baixo custo. Exemplo do fracasso do modelo tradicional foi o fechamento, no fim de julho, da última unidade própria da Runner, localizada no bairro de Higienópolis, em São Paulo.

“As academias grandes perderam posição, uma vez que os valores cobrados passaram a ser muito elevados frente ao que era oferecido e entregue”, diz Patrícia Madureira, nova CEO da Runner, que chegou a ter 45 mil alunos e 21 unidades em funcionamento. Hoje, a rede conta 27 mil clientes em 17 unidades.

A empresa agora tenta se reinventar sem migrar para o modelo de baixo custo.

“Era preciso um ajuste, uma vez que as grandes operações já não se mostravam rentáveis. Não faria sentido para nós partir para o modelo ‘low cost’, ignorando toda a expertise de 30 anos de prestação de serviços. Por tudo isso, hoje atuamos com academias menores, com serviços cada vez mais diferenciados e usando tudo o que a tecnologia oferece de mais moderno para nossos clientes”, diz Patrícia.

O que aconteceu com a Runner está muito ligada à expansão do grupo Bio Ritmo/Smart Fit. Com planos mensais de 17 segundos de salário do Neymar, a Smart Fit engoliu muitas concorrentes e se tornou a maior rede de academias do país.

Mesmo na liderança, o grupo também tenta se manter atualizado para oferecer aos clientes um serviço cada vez mais personalizado e diferente, como conta Edgard Corona, fundador da marca.

“Viemos trabalhando fortemente nos últimos três, quatros anos para melhorar muito a Smart [Fit], e quando você a melhora, ela passa mais consistência e coloca um pouco de pressão nessas academias tradicionais, entre elas a Bio Ritmo. Nós tivemos que nos reinventar tanto na Smart quanto na Bio Ritmo”, diz.

Segundo ele, a atualização não pode parar. “Houve uma evolução forte com produtos novos entrando nesta oferta [da Smart Fit]. Hoje temos um espaço para funcional, sala de ginástica, onde você consegue fazer aulas de dança, e o smart shape, que é um circuito funcional”, afirma.

Na Bio Ritmo, a transformação foi ainda maior. O grupo criou um modelo chamado de “Mall Fitness”, que são microacademias dentro das próprias unidades. Neste conceito, o aluno pode comprar cada treino (custa 13 segundos de salário do Neymar cada um), sem precisar pagar mensalidade. São cinco tipos diversos de exercício, cada um com seu propósito. O “Race Bootcamp”, por exemplo, é realizado em uma sala com iluminação diferenciada e com sensibilidade térmica. Das 30 unidades, 18 já contam com essas atividades. As outras estão sendo preparadas.

“As academias tradicionais têm um projeto que possui uma linguagem só. Na sala de ginástica, o cara também faz musculação, tudo com a mesma cara. Nós entendemos que, hoje, o cliente não quer apenas fazer aula. Ele quer viver uma experiência. Deixamos o espaço mais lúdico, mais motivante”, diz Corona.

SELF-SERVICE?

Presidente do Sindicato das Academias de São Paulo, Gilberto Bertevello critica as academias que ele chama de “self-service”, aquelas que não dão um acompanhamento para o aluno.

“Estão abrindo muitas unidades desse tipo. O negócio é feito por investidores, dinheiro de banco, capital aberto. Essas empresas têm poucos profissionais de educação física. Eles fazem uma ficha [de atividades, para o cliente] e não acompanham os exercícios. Hoje tem até treino por telefone”, diz.

Para Bertevello, o “self-service”, muito praticado nas academias ‘low cost’, desloca a consciência do que é atividade física. Segundo ele, as pessoas estão mal informadas hoje em dia.

“Pessoas machucadas em academias são as que mais aparecem nas clínicas de fisioterapia. Se pegar o equipamento de forma errada, fará o exercício errado. Cada equipamento tem desenhado um bonequinho [mostrando] qual região do corpo [o exercício] vai atingir, ou a forma de empunhadura. Aí o sujeito faz a matrícula, mas ninguém o acompanha. Fazer um exercício errado é como tomar um remédio errado”, afirma.

Marcus Quintella, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas), diz que o segredo das academias low cost para cobrar menos é justamente cortar funcionários e serviços que as tradicionais ainda oferecem. “Elas têm menos instrutores e professores, não possuem aulas coletivas, guarda-volume nem uma pessoa para limpeza o tempo todo. A manutenção também é baixa”, diz.

VEJA OS NÚMEROS DAS ACADEMIAS NO BRASIL (FONTE: ACAD)


Por Éder Fantoni para VEJA

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