Porque algumas crianças odeiam salas de aula e amam o pátio de recreio?

Quando se trata de acompanhar a performance dos filhos na escola, ser pais é uma batalha sem fim. A sensação é de que você ajuda, apoia, acompanha, ensina e, quando acha que teve algum progresso, tudo volta a zero quando chega um novo assunto ou uma nova lição. Aliás, lição de casa deveria se chamar “castigo de casa”. Não é comum uma criança chegar em casa e, entusiasmada, dizer: – VOU FAZER MINHA LIÇÃO DE CASA, não vejo a hora. A intenção da lição de casa é, acho eu, aprofundar o conhecimento de um assunto aprendido em sala, ops… apresentado em sala de aula. Mas acaba virando uma tortura se o pai ou a mãe tiverem um pouco de esperança de que aquele momento realmente se transforme em algo complementar ao aprendizado da criança.

As crianças não gostam das aulas. Ponto final. No meu tempo adorávamos a educação física e detestávamos as aulas de sala. Adorávamos também aquele professor que despertava na gente uma chama, um desejo de querer saber mais. Hoje, num mundo cheio de games muito atraentes e comidas saborosas (e pouco saudáveis), as crianças, em sua maioria, com excesso de peso e sedentárias, detestam  a educação física e os professores das matérias em geral. Inacreditável.
Minhas filhas ADORAM chegar mais cedo na escola e invariavelmente ODEIAM quando vamos buscá-las logo depois do sinal da saída. Querem chegar mais cedo e ficar até mais tarde. Um desavisado poderia imaginar que elas AMAM a escola. Pois é, amam o ambiente, os amigos, as conversas, o universo mágico do contexto social da idade delas e acham um porre as aulas propriamente ditas. São raros os momentos que uma delas me pergunta algo relacionado à escola.
Hoje uma me perguntou: – Papai você conhece o Rio Nilo? Ainda nocauteado com a incomum pergunta respondi: – Não conheço mas já li a respeito. Com a força de uma represa se rompendo lhe perguntei imediatamente: – Por que  pergunta?. Ela: – Não sei porque nos ensinam isso. Assunto chato, sem sentido. Aposto que escolheram falar sobre isso porque cai no vestibular. Um pai desesperado por manter acesa a chama da crença de que a escola é importante, mesmo não achando que é tanto, emendei sem pensar muito. – Ah filha mas é legal aprender sobre esse fantástico rio, é o maior do mundo e é no Egito. Na verdade começa no Egito…  etc e tal. Ela, como se fosse um bombeiro jogando água no fogo, com uma inclemência, me disse: – É?  E, desinteressada no meu próximo comentário, continuou buscando algo no celular. Fiquei inerme, inerte, paralisado.
Aquela resposta me matou por dentro, me aniquilou como pai, me destruiu como professor, me fez pensar se as aulas são um fim ou um meio. Será que ainda existem educadores nas escolas? Ou melhor, vou mudar. Educadores não, essa expressão gera uma “viagem” filosófica que é infrutífera. Será que não existem mais inspiradores nas escolas? Será que só existem patrulheiros e pregadores políticos ou entregadores de assuntos? Entregadores de assuntos são profissionais que em busca de completar um currículo escolar, entregam em suas aulas um programa de conteúdo atrasado, desconectado com a realidade e desinteressante?
Ela não saiu com vontade de buscar mais a respeito, eles não saem da escola em busca de mais conhecimento, ou melhor, não saem da escola com vontade de mais experiências, de vivências novas. Triste.
Mas pode ser que o problema esteja com minha filha. Pode ser que ela seja burra e preguiçosa… claro que pode ser. Não é o que eu vejo no dia a dia. E mesmo que você desconfie do meu paternalismo quase de torcedor futebolístico, fico tranquilo em dizer que uma de minhas filhas escreve textos maravilhosos, tem um senso de observação fora do normal e um senso de justiça incomparável. A outra é ativa, criativa, adora assistir e aprender receitas sobre comidas e doces. Desde os 6 anos fala que quer ser uma CHEF famosa quando crescer.
Como eu disse anteriormente, eu corro o risco de ser um pai protetor e cego, mas compare com seus filhos. Eles também têm talento em alguma coisa. Veja que na escola delas, elas têm como tarefa ler dois livros por mês. Não é o máximo? Excelente não é?
Seria não fosse  o fato de que as opções disponíveis para elas escolherem são determinadas pela professora. Não duvido da capacidade da professora de escolher assuntos e temas que ela julga serem eficientes para construir o hábito nas crianças, mas não está funcionando. Minha filha fica fazendo contas de quantas páginas faltam para terminar. Já peguei ela e minha esposa fazendo contas de quantas páginas por dia deveria ler para completar o livro. Nunca me chamou para fazer comentários a respeito de qualquer conteúdo dos livros que “como castigo” teve de ler.
Isso não é uma crítica à escola delas propriamente dita. A escola é boa, eu sou empresário e sei muito bem o que é ter uma empresa de serviços. Elas saíram de uma escola que exagerava na patrulha política ideológica vermelha, o professor de educação física fazia rodas de debates a respeito do real sentido dos jogos olímpicos. Eu disse debate, sentados com crianças de 10 anos de idade.  Ensinou que o futebol no começo era jogado com cabeças de pessoas ao invés de bolas. Sei que tudo tem um contexto mas por esses e outro motivos decidimos trocá-las de escola  e estamos bem agora.
O meu ponto é especificamente com o professor. Precisa ser chato? Precisa ser operacional? Precisa ser aborrecido? Precisa ser desconectado com a realidade? Precisa ser desinteressante? Eu pergunto se você no seu trabalho está jogando para cumprir tabela ou jogando para ganhar o campeonato?
Professores despertem. Vocês estão entregando assuntos somente para os corpos das crianças. O que está ali na frente de vocês são corpos desprovidos de almas (desanimados/ des= sem e anima = alma). Não há interação profunda, só superficial. Não há desafios atraentes, não há entusiasmo e curiosidade despertadas.
Vocês estão pregando no deserto. Não os culpo de nada. Não os acuso de nada. É muito difícil mesmo. Mas não pode continuar assim. Num momento da história que se fala tanto de criatividade, de desenvolvimento do potencial, quando temos tantos recursos de pesquisa e ferramentas disponíveis na internet ou fora dela, não podemos aceitar que as aulas sejam chatas e infrutíferas. As crianças ficam com vocês 5 horas por dia, 25 horas por semana. Um amigo meu me alerta que o conceito de comunicação é: O RESULTADO QUE ELA GEROU. Se não gerou resultado, não funcionou. E nunca a culpa pode ser de quem está recebendo a informação. Se eu, como dono de uma ideia não souber fazer as pessoas entenderem o que quero explicar, não posso simplesmente dizer: VOCÊS NÃO ENTENDERAM. Eu preciso rever meu discurso e minha estratégia. Na escola é preciso mudar.

Almeris Armiliato

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